5ª AURORA · A LEMBRANÇA

Aquilo que nunca se perdeu

Não a memória dos acontecimentos. Mas o reencontro com uma parte de nós que nunca deixou de existir.

Há momentos em que sentimos que nos afastamos de nós mesmos.

A vida acontece.

Assumimos responsabilidades.

Vivemos alegrias e decepções.

Aprendemos a nos proteger.

Criamos hábitos.

Acumulamos histórias.

E, sem perceber, começamos a acreditar que somos apenas tudo aquilo que vivemos.

Mas existe algo curioso sobre a experiência humana.

Mesmo depois de muitos anos, basta um instante para sentirmos uma familiaridade difícil de explicar.

Um lugar.

Um silêncio.

Um olhar.

Uma música.

O cheiro da chuva.

O vento no rosto.

A sensação de estar completamente presente.

Por um breve momento, tudo parece voltar ao seu lugar.

Não porque algo novo tenha acontecido.

Mas porque algo antigo foi reconhecido.

Talvez seja isso que chamamos de lembrança.

Não a memória dos acontecimentos.

Mas o reencontro com uma parte de nós que nunca deixou de existir.

Ao longo das auroras anteriores, despertamos.

Retornamos.

Aprendemos a escutar.

Atravessamos mudanças.

Agora, o caminho nos conduz a uma descoberta diferente.

Talvez nunca estivéssemos procurando algo fora de nós.

Talvez estivéssemos apenas aprendendo a recordar aquilo que sempre esteve presente.

Essa lembrança não pertence apenas ao pensamento.

Ela acontece no corpo.

Na maneira como respiramos.

Na paz que, às vezes, surge sem motivo.

Na sensação de pertencimento que não depende das circunstâncias.

É como reencontrar uma casa que nunca deixou de ser nossa.

Mesmo quando passamos muito tempo longe dela.

É esse reencontro que viveremos nesta aurora.

Não para nos tornarmos alguém diferente.

Mas para lembrar, com mais clareza e mais ternura, daquilo que sempre fomos.

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